Análise do Conto “Pele de Foca, Pele da Alma”

Podemos ler este conto no livro Mulheres que Correm com os Lobos da autora Clarissa Pinkola Estés. Este belo conto nos lembra da importância de nos reconectarmos com nossos ciclos. Esta reconexão nos leva de volta ao nosso lar psíquico, nos trazendo alimento e nos ajudando a identificar o que está demais e o que está de menos em nossas vidas.

Como nos conta a autora, houve um tempo em que estes ciclos estavam impregnados nos homens. As estações do ano ajudavam a percepção da chegada de tudo o que era comum àquele tempo. Sabia-se instintivamente que a chegada do inverno vinha acompanhada de um período de introspeção, de incubação. No frio, tendemos a querer ficar em casa, perto do fogo, compartilhando com pessoas mais próximas. O mesmo movimento é visto em algumas árvores e plantas: suas folhas ficam menos verdes e seus galhos ficam mais proeminentes. Sem folhas, a troca com o meio externo é muito menor. Na primavera existe o prenúncio do novo. Aquilo que ficou incubado precisa nascer. O sol chama para fora de casa. As plantas ficam floridas e coloridas. Todos estes movimentos eram sentidos pelos ancestrais de uma forma muito intensa. A natureza era parte deles.  Esta é a conexão de povos que vivem mais perto da natureza. Os índios conseguem sentir o cheiro da chuva muito antes dela chegar. Este conhecimento ancestral foi se enfraquecendo com o desenvolvimento das grandes cidades. E a leitura deste conto nos ajuda a compreender como estes ciclos são importantes para nosso autoconhecimento.

O conto nos traz a história de um homem solitário que um dia perto das rochas onde pescava ouviu um grupo de  mulheres foca dançando.  Ele ficou encantado com aquilo e acabou roubando uma das peles de foca de uma das mulheres. Ele insistiu para que a mulher foca se casasse com ele, mas ela negou, dizendo que esta não era sua natureza.  Ele implorou e disse que se ela se casasse, ele devolveria sua pele em sete anos. Finalmente ela aceitou e tiveram um filho lindo. Mas com o passar do tempo, sua pele começou a ressecar e a mulher foca foi ficando cada vez mais sem vida. Ela gostava da sua vida lá em cima, mas estava precisando retornar ao seu lar. O desfecho do conto nos mostra como é possível viver uma vida objetiva, mas tendo momentos onde podemos retornar para nos abastecer.

A foca é um animal que tem parte de sua vida dentro da água e parte fora. As focas são animais dóceis e fieis.  A mulher foca do conto simboliza a natureza selvagem da mulher. Esta natureza traz a comunhão consigo mesma e é ela que sustenta o período que passamos longe de casa, no mundo objetivo. A volta ao lar periódica é o que sustenta novamente a psique feminina para outros projetos, família e relacionamento. A mulher foca precisa mergulhar fundo para novamente subir à superfície. A mulher só recupera sua pele de foca com a ajuda de seu filho. Este filho é um ser especial, já que possui dupla natureza. Esta criança é aquela que consegue levar e trazer mensagens  e presentes de um lado para o outro.

O conto nos mostra como ocorre o definhamento quando passamos muito tempo longe do nosso lar psíquico. Sintomas como tédio, depressões, falta de sentido e irritações são sinais de que algo está restringindo nossa volta para casa. É comum em épocas assim, usarmos roupas que não nos servem. Sentimos que estamos vivendo uma vida artificial. Nestes estados podem ocorrer sonhos com animais feridos ou homens sinistros, roubos ou ameaças. E quando não retornamos ao lar de livre e espontânea vontade, somos chamadas por um grito. Podem ocorrer pesadelos. Nada dá certo e a vida se endurece, ficamos sempre cansadas, mesmo depois de uma boa noite de sono. É aí que somos chamadas pela “mais velha” . A foca mais velha chama o filho, que devolve a pele de foca para sua mãe, antes que seja tarde demais.

Como nos ensina o conto, sofremos “roubos mais brandos” quando estamos conectadas com os ciclos da natureza. A pele é nossa casa, nosso grande órgão do sentido. Ela que reconhece quando sentimos calor, frio, arrepio diante do perigo. Sem a pele, não conseguimos saber se passamos do nosso próprio limite. A pele é nosso lar, nossa proteção e nosso sistema de alarme.

A volta ao lar, depende de cada mulher. Tem significados diferentes para cada uma. Tanto a volta ao lar, como a volta à superfície são importantes, assim como os ciclos da natureza. O mundo objetivo é importante, pois é nele que agimos e colocamos em prática nossas idéias. Mas este mundo precisa do alimento que conseguimos quando voltamos do outro lado. Muitas mulheres voltam ao lar pela prática de meditação, Yoga, realizando trabalhos manuais, viajando com amigas. Depende. Nas antigas tradições estes períodos de volta ao lar era relacionado com a menstruação. É um período de maior sensibilidade, é quando conseguimos escutar mais. Por isso, hoje muitas mulheres relacionam este período com irritação. Não nos damos tempo para voltar para casa, para nos recolhermos. E essa sensibilidade, invés de ser algo positivo, acaba se tornando algo indesejável.

Em muitos casos, o processo de iniciação de uma mulher começa com uma perda de sua pele. É um processo de descida e resgate do seu tesouro e a descoberta do que realmente pode abastecer sua alma. Muitas chegam para terapia nesta etapa, com a pele bem ressecada, clamando por vida e sem energia. A energia do mundo puramente objetivo, se seu ego já se esgotou há muito tempo. Algo pede para ser resgatado, mas ela não sabe o caminho. É quando ficamos envolvidas demais com funções do nosso ego, sendo boazinhas demais, perfeitas demais e gastando muito tempo com os outros. Mesmo estes outros sendo pessoas que amamos.

Vale a pena a leitura do capítulo completo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *