Permanecer em Casa

De repente, tudo mudou. A exigência da vida extrovertida, com horários e rotinas desapareceu. O mundo parou. A agitação e a constante falta de tempo da vida moderna deram espaço ao ficar em casa. Perdemos muitas coisas neste curto espaço de tempo. Nosso ego, aquela parte da nossa psique que organiza nossa vida, realiza as tarefas, nos situa no tempo ficou sem chão. Rapidamente, tentamos montar uma nova rotina em casa que nos possibilite a pisar no chão. Mas que chão é este de agora? O desconhecido assusta, não é o melhor amigo do nosso ego. Este prefere a segurança e o controle, ainda que ilusório de situações da vida.

Perdemos entre tantas coisas, o convívio social. Ficamos mais com nós mesmos. Neste lugar, desta nova maneira, vamos percebendo a existência de muitas coisas. Recebemos a visita de muitos sentimentos e emoções. Alguns bons e outros nem tanto. Mas que lugar é esse, desconhecido, dentro da minha própria casa? Porque será que onde eu quero ver produtividade, só encontro preguiça? Encontro raiva, ansiedade por não conseguir realizar minhas tarefas e por não saber o que esperar do futuro.

Queremos arrumar nossa casa, limpar aquele armário naquele quartinho. Vamos visitar o depósito. Lá tem muitas caixas, com muitas coisas que nem lembramos mais. Mal sabemos o que tem lá dentro. Vamos revendo memórias através de objetos que nem sabemos que estão lá guardados, esquecidos. É difícil arrumar o quartinho, são muitas coisas. Temos que saber o que vamos manter, o que vamos doar, jogar fora ou simplesmente mudar de lugar. Temos que nos despedir de coisas que não queremos mais. Quando estamos prontos, pode ser um alívio, mas existe um caminho entre o dia que amontoamos tudo e o dia em que de fato queremos renunciar a estas coisas. A quarentena é esse caminho, vamos ter que caminhar sobre ele. O quartinho é o quartinho da nossa psique.

Nossa casa é onde estamos enraizados, são nossas raízes, símbolo do nosso próprio inconsciente. Até o tempo passa diferente na quarentena. Não temos mais o ritmo da rotina, Cronos, o senhor do tempo cronológico foi embora. É o tempo de Kairós. Este é o tempo do significado, do inconsciente. Neste outro tempo, vamos nos dando conta de que têm muito mais coisa na nossa casa do que agente imaginou. Significados, lembranças, saudades, abraços, cozinha, dores, aconchego. Kairós nos ajuda a entrar na dimensão do ser e dos sentidos.

Na Alquimia, era fundamental para o êxito da Obra que ela ocorresse num ambiente hermético. Estamos nessa retorta alquímica. A transformação exige trabalho. O confronto com nós mesmos, o que Jung chamou de encontro com a Sombra. Em contato com nossas raízes, vamos percebendo novas dimensões. Mas era tão mais fácil, não ter tempo de perceber muitas coisas! Nossa escolhas ficam escancaradas no espelho da nossa casa. Este é o deserto, a travessia da quarentena. Este confronto, mesmo que dolorido, promove uma mudança. Podemos despertar para o que Jung chama de Processo de Individuação. Vamos ser mais inteiros? Este é o convite. Este contato com nossas raízes promove uma descida necessária à transformação. Neste resgate intenso, dos meus sentimentos  e do meu ser, acesso meu coração. E neste lugar, também me reencontro, me encontro na minha casa.

Fiquemos todos bem em casa!

 

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